domingo, 14 de novembro de 2010

Na língua dos sentidos


No mundo da culinária, o lume brando é um conceito sábio. O aquecimento gradual e ponderado potencia o sabor, minimiza os riscos de esturrar as iguarias e de queimar a caçarola. Já no mundo das emoções, o lume brando é um sarilho. Elas precisam de ferver. De borbulhar. De fazer saltar a tampa nos locais mais insuspeitos. Precisam de excesso de vapor e de pimenta. Na língua dos sentidos, a chama curta corre sérios riscos de se desvanecer à mínima corrente de ar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ilusão Vs mentira

Eu gosto de ilusão. Gosto de sonhar, de imaginar um futuro melhor, de pensar utopias, daquelas que – conscientemente – podem nunca acontecer mas que nos servem de farol. Nem me importo de pagar por elas. Pago por um bom momento de ilusão, como quando vou ao cinema ou a outro espectáculo, quando leio um livro ou, simplesmente, quando me sento em frente à televisão para sentir o suspense de uma série.
Que bom que é viver e ter ilusões. Mas não confundamos as coisas… É bom viver e TER ilusões. Não é bom VIVER de ilusões. Há um dia em que tomamos consciência de que não se pode viver eternamente de ilusões. A realidade é sempre melhor, mesmo quando é pior!
Não tenho ilusões: a minha realidade não é a realidade do próximo, tal como o não são as minhas verdades. Falemos de situações factuais, do senso comum e de enganos conscientes.
Passemos então para a mentira. A mentira é um tipo de ilusão. Porque será que tantos escolhem viver em mentira? Uns em mentiras suaves, outros em mentiras profundas, mas mentiras. Não deixam de ser mentiras.
É aquele vendedor que vive na mentira do lucro. Vende tudo pelo preço mais alto que consegue, mesmo se aquele produto nada vale ou, pior, se não tem valor para o cliente. Ele sabe usar a ilusão. Ilude o cliente, fá-lo acreditar que precisa daquilo. Ilude-se a ele por acreditar que vender – só por vender – é bom.
É o amigo que não conta o que sabe ser importante para o outro, não se dá a conhecer tal como é, esconde-se em falsas verdades, (Caberá isto no conceito de amigo?).
É o colega de trabalho que procura criar uma imagem de si e outra do colega para chegar onde pensa querer (Valerá isto apena?).
É o professor que passa o aluno sem saber (Será isto aceitável?).
É o político que promete – o que sabe não ser possível – para manter ou conseguir o lugar (Conseguirá?).
É o jornalista que transforma a notícia (Que notícia? De outra coisa que, embora possível, foi apenas imaginada?).
Mas é também o padeiro que rouba no peso do pão. É o mecânico que substitui a peça sem necessidade. É a burocracia incompreensível, com objectivos não assumidos. É o casal que se engana. É a história mal contada. É! …
Depois de lermos este texto pensemos nisto: na vida, na verdade e na mentira…apesar de “andar meio mundo a enganar outro meio”, não devíamos pensar em tentar mudar isto???
Pessoalmente, por mais dura e cruel que seja a verdade, prefiro-a à ilusão/mentira.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente...

sábado, 5 de dezembro de 2009

Murmúrios

Clan Of Xymox – “Losing My Head”

domingo, 1 de novembro de 2009

sábado, 31 de outubro de 2009

Poema inacabado

Olhar para ti é ver um poema inacabado, que não quero construir. Quero-o assim por terminar, assim por concluir…Quero, uma e outra vez perder-me nos caminhos que o teu olhar desfez…Aqueles que apenas tu sabes…aqueles onde só tu me vês…

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Murmúrios

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Within Temptation – “Utopia” (feat. Chris Jones)

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

“Carlos Drummond de Andrade”

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Louca?

Louca?

Talvez seja loucura
Desejar um beijo teu
Suspirar por teus toques.
Me perder em desejos
Sonhar com você,
Acreditar em um amanhã
Ao seu lado…
Dizer a todos
Que seu coração vai ser meu.
Sei que serei louca.
Mas antes louca com os meus
Desejos realizados
Do que uma louca por perder
A chance de sonhar com você
Na minha
Realidade!!!